Dá para reinventar o Batman depois de mais de 80 anos? A cada poucos anos isso é tentado, para manter o personagem interessante. Scott Snyder e Greg Capullo reiniciaram o Batman com Os Novos 52, sem que isso realmente parecesse um recomeço, mesmo que tenham recriado parte da mitologia do personagem.
Agora a DC fez mais uma tentativa de começar do zero, em um novo universo que funciona com suas próprias regras e redefine todos os grandes super-heróis: o Universo Absolute. E, no caso do Batman, Scott Snyder assume novamente como roteirista. Dessa vez, ele vira tudo de cabeça para baixo.
Um novo Batman vindo de baixo
Bruce Wayne não vem de uma família rica. Seu pai era professor antes de ser assassinado por Joe Chill durante um passeio escolar ao zoológico. Bruce foge durante o ataque junto com seus colegas para a casa dos morcegos. Sua mãe, Martha, se torna vice-prefeita ao lado do prefeito James Gordon.
Esse novo Batman se fez verdadeiramente do zero. Ele não apenas veio de baixo, mas continuou conectado a essa realidade.
Desde a infância, ele é um inventor genial, que mais tarde constrói um traje capaz de reproduzir várias habilidades dos morcegos. Sua capa possui ganchos em forma de garras que permitem que ele se mova como se estivesse sobre pernas artificiais. Ele pode remover suas “orelhas” e usá-las como batarangs ou facas. O símbolo do morcego em seu peito pode se transformar em um machado de combate, com o qual ele chega a amputar membros de seus inimigos sem hesitar. E a sua armadura traseira pode projetar espinhos que empalam qualquer um que chegue perto demais.
O desenhista Nick Dragotta apresenta um Batman mais robusto, à la Frank Miller, mas ainda assim mais ágil do que o habitual. Ele também demonstra domínio do storytelling visual, utilizando vários pequenos painéis interligados para construir cenas, sem que isso pareça confuso ou sobrecarregado.
Máscara Negra quer instaurar a anarquia em Gotham
No centro da história está Máscara Negra (Roman Sionis), que, junto da sua gangue chamada Party Animals, aterroriza Gotham. Os membros, usando máscaras de caveiras de animais, agem com extrema brutalidade contra civis.
Roman quer incitar a população à anarquia, como forma de se vingar de um sistema que os explora, apelando para a ganância das pessoas. No entanto, ele próprio serve a uma figura poderosa e misteriosa nas sombras, que se apresenta apenas como Coringa — e que nunca ri.
Ao lado do Batman está Alfred Pennyworth, aqui retratado como um antigo agente secreto, que tenta convencê-lo de que o Máscara Negra é grande demais para ele e que talvez seja melhor fazer um acordo.
Os vilões clássicos do Batman aparecem aqui como amigos de infância de Bruce: Harvey Dent (Duas-Caras), Ozzie (Pinguim) e Edward Nygma (Charada) se reúnem para jogar cartas e ajudam como podem. Waylon Jones (Crocodilo) é apenas um boxeador que gosta de répteis. Selina (Mulher-Gato) também conhece Bruce desde a infância.
Bruce Wayne já é um jogador de equipe antes mesmo de existir uma “Bat-Família”.
Crítica social alinhada ao espírito do tempo
Essa construção de mundo já é interessante por si só, e, combinado com uma história cheia de ação, bem estruturada e com algo a dizer, o primeiro volume de Absolute Batman oferece uma estreia impactante nesse novo universo.
A mensagem é claramente anticapitalista e dialoga com a atualidade: existem pessoas com dinheiro demais, contra as quais parece quase impossível lutar. Mas o Batman dessa versão faz uma escolha simbólica. Ele pega 200 milhões de dólares e os queima (como o Coringa de Heath Ledger), em vez de usar o dinheiro para equipamentos.
Esse Bruce Wayne despreza tanto o dinheiro que o rejeita completamente. Para ele, não é o dinheiro que resolve as coisas, mas sim a mentalidade e a vontade inabalável de promover mudanças.
E, mesmo nesse contexto, é possível identificar referências à Ano Um, especialmente em um longo monólogo interno sobre a alta sociedade de Gotham, que teria consumido a alma da cidade.
O Batmóvel também surge como um tanque ainda maior do que em O Retorno do Cavaleiro das Trevas, e a narrativa por vezes é bastante brutal. Ao mesmo tempo, Snyder introduz novos conceitos, como uma primeira tentativa de Batman em que Bruce assume um visual quase vampírico. E, acima de tudo, os personagens secundários parecem extremamente vivos e críveis.
Tudo isso pode ser resumido em uma palavra: Uau.
É algo que precisa ser lido. É, de longe, um dos quadrinhos do Batman mais interessantes dos últimos anos.
A Avaliação
Absolute Batman – Vol. 1: O Zoológico
Absolute Batman reinventa Bruce Wayne sem fortuna e apresenta um herói moldado pela sobrevivência, em uma história envolvente marcada por ação intensa e comentário social.
Detalhes da avaliação;
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Nota



