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Início » Críticas do CN42 » Críticas de Filmes » Crítica | Paris, Texas (1984)

Crítica | Paris, Texas (1984)

Karlos Eduardo Por Karlos Eduardo
03:11 seg, 03/11/2025
em Críticas de Filmes, Filmes
Tempo de leitura: 4 mins
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Divulgação / 20th Century Studios

Divulgação / 20th Century Studios

Dirigido por Wim Wenders, Paris, Texas é um dos maiores feitos que o cinema já realizou. A coprodução entre França e Alemanha, porém filmada nos EUA, rendeu uma Palma de Ouro para Wenders, além de inúmeras indicações e vitórias dentro de outras premiações. Tendo Road Movie como um de seus gêneros, o filme trata muitas temáticas de maneira única, sejam elas de forma narrativa ou visual; fazendo desse, um dos filmes mais influentes de todos os tempos. Inclusive, o título do filme é de uma curiosidade que você nunca mais vai esquecer!

No filme, Travis (Harry Dean Stanton) é encontrado exausto e sem memória em um deserto no sul dos EUA. Conforme ele vai se lembrando de sua vida, seu irmão Walt (Dean Stockwell) o acolhe. Junto dele, moram também sua esposa, Anne (Aurore Clément) e Hunter (Hunter Carson), seu sobrinho. Agora, Travis precisa se conectar com seu filho que deixou para trás, em simultâneo que tenta acertar a vida com a sua esposa Jane (Nastassja Kinski).

O peso emocional de Paris, Texas

Divulgação / 20th Century Studios

Esse é um daqueles filmes com grandes personagens e grandes atuações. Travis passa boa parte do primeiro ato sem dizer uma palavra sequer, mas o misto de exaustão e confusão nos olhares de Harry Dean Stanton é evidente. Este é um personagem com uma construção lenta e necessária, visto que seus objetivos são gradualmente exibidos. Ele encanta por ser uma pessoa humana, que o tempo todo luta internamente contra seus pensamentos e tenta articular situações para poder resolver não só a si, mas pessoas ao seu redor.

Enquanto Hunter é uma criança fascinante, justamente por ser sem filtros. Ele não tem medo de expor seus sentimentos, bem como suas principais vontades. A interpretação de Hunter Carson é carismática e transmite simpatia, fazendo-nos apegarmos rapidamente a ele, assim como seus tios e o próprio Travis. Já Nastassja Kinski, estampa a cena mais icônica do filme. Ela simplesmente sentada, ouvindo e sentindo cada palavra dita, já externaliza todo o drama da personagem que ainda nem sabemos exatamente qual é. Aquela lágrima que escorre é capaz de ilustrar todo um passado mal resolvido. E a solidão se mostra como um dos temas desse filme. Seja por um personagem andando no nada, ou por outro que literalmente olha a si e não sabe o que vê.

Nesse sentido, uma das grandes forças do filme é o seu roteiro. Existem, sim, os momentos contemplativos em que nada precisa ser dito, mas quando é dito, até a pessoa mais insensível do mundo se emociona. Os diálogos são reais, falados e transparecidos por pessoas reais. A exposição de pensamentos é genuinamente pura, profunda, sincera e engloba uma história que vamos aos poucos descobrindo. Por parte do filme, o charme é tentar entender o que aconteceu, bem como os próprios personagens; e mesmo com essas pessoas que não se veem há tanto tempo, facilmente nos conectamos a elas e aos seus sentimentos complexos trabalhados em cada cena.

As cores comunicativas

Divulgação / 20th Century Studios

Um dos temas que cerca o filme é a alienação social da América, onde existe essa expectativa da idílica família americana e dos papéis convencionais, caindo nas contradições da realidade envolvendo alcoolismo, violência doméstica e relacionamentos abusivos. E são exatamente as cores da bandeira dos EUA que predominam o filme, o vermelho, branco e azul (isso desde a primeira cena). Mas o vermelho é o que aparece com mais frequência, sendo uma possível interpretação do controle total, quando tudo está indo conforme o planejado e todos estão fazendo sua parte, se movendo.

E isso se traduz diretamente em roupas, objetos e elementos de cenário. Quando Travis e Hunter procuram Jane em Houston, por exemplo, acabam perseguindo muitos carros vermelhos, brancos e azuis, passando por prédios e artes de rua com as mesmas cores. Contudo, as cores mudam para verde sempre que Travis demonstra preocupação ou amor por sua família. O verde, nesse contexto, estaria associado estagnação, retraimento, cansaço e o sentimento de comprometimento com outros seres humanos.

Perceba que quando existe o reencontro ao fim do filme, as duas pessoas no quarto estão usando roupas verdes. E detalhe: há uma cidade na janela ao fundo com um filtro esverdeado. Enquanto isso, Travis está no estacionamento, completamente inundado de luz verde. Ele observa aquele momento, então, entra em seu carro e dirige em uma noite vermelha, branca e azul. Ele finalmente concluiu sua história, mas não dentro dos padrões americanos de felicidade.

O verde está relacionado à crise, e existe uma garrafa de vinho verde na cozinha dos Henderson, que logo podemos fazer uma conexão ao grave problema que Travis tinha com bebida, então, talvez seja por isso a escolha dessa cor para os sentimentos mais negativos?

Portanto, Paris, Texas é um dos filmes mais poderosos que você vai assistir. É de uma perfeição absoluta como todos os aspectos que formam um filme se sobressaem na experiência. De um roteiro instigante, personagens multifacetados e cores bem utilizadas, temos um filme atemporal, que deixou uma belíssima marca no cinema.

Ver trailer

Paris, Texas

Paris, Texas

Ano: 1984
Duração: 147
Direção: Wim Wenders
Roteiro: L.M. Kit Carson, Sam Shepard
Elenco: Harry Dean Stanton, Nastassja Kinski, Hunter Carson, Dean Stockwell, Aurore Clément

NOTA

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Karlos Eduardo

Karlos Eduardo

Apesar de ainda jovem e eternamente aprendiz, completamente apaixonado por toda a beleza que compõe o cinema. Tentando sempre expandir mais o olhar cinematográfico com minhas fontes de inspiração, seja nos próprios filmes ou em quem fala sobre eles.

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